Morre o sanfoneiro Sr Antônio Osório no Iguatu

Hoje cedo em sua rede social o companheiro Neto Braga noticiou a morte do sanfoneiro Antonio Osorio, que residia na Cohab I e vivia tocando pelo centro comercial de Iguatu e em eventos como as tardes festivas e de convivência da terceira idade da Associação dos Idodos de Santa Edviges da Silésia. A última vez que tive a satisfação de estar com o músico juntamente com o Neto Braga, foi nas comemorações do Dia das Mães, em tarde festiva da Associação que ocorreu no Centro Pastoral Santo Antônio. Quando o fui buscar na casa dele para tocar na festa das mães, me relatou a um pouco da sua experiência de vida e até cantou pra mim a música que fez em homenagem ao Padre Patrício, do qual o mesmo havia encontrado o corpo do mesmo quando afogado nas águas do Rio Jaguaribe em 16 de Abril de 1973.

A noticia nos entristece e desejo força a família e aos amigos.

Abaixo segue a coluna homenagem feita pelo companheiro Cícero Correia Lima (Neto Braga)

Cidadania é Ação
"O preço da liberdade é a eterna vigilância"
Em campanha contra a violência e a corrupção em nossa terra;

Tem o pesar de comunicar a morte do senhor Antonio Osório

No começo do ano, no mesmo local, assistira á palestra do advogado e poeta Quintinho Cunha, do Ceará, que arrebatara o auditório com suas historias e anedotas. Parte da Conferência foi dedicada aos cantadores, violeiros e poetas populares do Nordeste, de que a Paraíba, era fonte e matriz inesgotável. “É afetação, disse Quintinho Cunha, considerar desprezível a poesia dos nossos cantadores e repentistas por não obedecerem ás regras da gramatica e a metrificação. Eles são poetas como o galo de campina é poeta, o golado, o pintassilgo, o concriz, a graúna, o canário da terra, todas fazem poesia. A poesia, alguém já afirmou é como a graça: Sopra onde quer.

(Carcara – Ivan Bichara)

Antônio Osorio da Silva

Meu nome é Antônio Osorio da Silva, nasci na cidade de Senador Pompeu em 20 de março de 1930, filho de Manuel Osorio e Francisca Clemente da Silva. Papai veio para estes lados pra trabalhar na construção do açude de Lima Campos, no ano de 1932, eu tinha dois anos quando cheguei aqui no Iguatu, com meus oito irmãos. Nunca mais voltei. 

Eu aprendi a tocar
Com 13 anos de idade
Toquei na Radio Iracema
Hoje Radio Liberdade.

Conheço todo o interior desse Iguatuzão, tocando. Naquele tempo não existia essas bandas de forro, era só o tocador, um zabumba e um fole, tocava a noite toda. Todo mundo só procurava a Antônio Osorio:

Depois que inventaram banda
Elas viraram a maior
É dito pelo mundo inteiro
Que o pobre do Sanfoneiro
Ficou lá no carito.

Eu morava com minha mulher Maria Auxiliadora e meus filhos, num prédio velho abandonado lá no Fomento, o responsável pelo prédio era o Dr. Mauro Papaléo, aquele povo mais pobre que não podia pagar aluguel, ele deixava morar lá. Uma vez, no ano de 1973, um inverno muito bom, o rio Jaguaribe cheio, o povo todo em rebuliço, agitado com o sumiço do Padre Patrício, tinha ido tomar um banho de rio, ali no Sítio Penha, com mais três companheiros e havia se afogado, todo mundo na busca do padre. Eu sai para fazer uma pescaria, pegar o almoço dos meninos, tava botando o galão, ali nas alturas das Intanhas, pertim das Cajazeiras, quando vi algo que me pareceu suspeito, me aproximei para ver mais de perto, tive um espanto, era o padre, enganchado num pé de Jaramataia, dentro do rio:

Perguntei ao padre Antônio
Ele me disse: Pois não
Ele morreu de derrame
Mas ganhou a salvação

Na cheia de 74 o rio correu conosco de lá, no prédio velho a água ficou cobrindo as paredes, logo, logo, não deu tempo tirar nada, saímos com a roupa do corpo, eu, a mulher, e os meus dez filhos. Fomos levado pelo pessoal da prefeitura para o Colégio Diocesano, ali no Tabuleiro.

Começou a haver umas reuniões com os desabrigados, eu fui mais a mulher, ganhamos o terreno da casa. Eu ganhava um dinheirinho tocando, construí um vão e entramos pra dentro. Com o tempo e as dificuldades, vendemos nossa casa, fomos embora pra São Paulo, a mulher ainda esta lá, mais os meus filhos, eu não me acostumei não. Estou aqui com uma filha que decidiu ficar comigo, pago aluguel, tem outras despesas. Ainda no sábado passado, eu fui tocar no abrigo metálico, ganhei 15,00 reais. Paguei 10,00 reais de moto-taxi. Mas tem dia que a gente almoça, mas não janta. Minhas pernas não dão mais para eu andar, às vezes vem alguma pessoa atrás deu tocar, eu pergunto logo:

- Tem carro!? Se tiver eu vou.

Mas o fole velho, todo remendado com cera, papel higiênico, grude de goma. Tenho um sonho de ganhar um de presente, pode ser usado. O senhor me ajuda?

Oh senhores! Oh senhoras!

Tou pedindo uma esmola
Quero que vocês me diga
Quem já foi Antônio Osorio
Ai meu Iguatu
Eu tando longe de ti
Tenho saudade de tu.
Quando eu me lembro
Lá do Alto do Jucá
Da rua do Tabuleiro
E meu pé de Jatobá.
Vila Neuma, onde eu toquei forro.
De tocar a noite inteira
E a poeira vira pó.
De madrugada houve lá um rebuliço
Antes do amanhecer do dia
Eu chamei por Jesus Cristo
E terminou o Forró.

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